A COOPLURB – Cooperativa de Logística Urbana – é uma experiência prática que utiliza os conceitos da Base Comum de Conhecimento do Cidadão aplicados às Unidades de Planejamento Participativo.

Foi desenvolvida pelo Instituto Lidas em parceria com a entidade Casa dos Meninos em 2001, na Zona Sul de São Paulo, e é formada principalmente por jovens. Leia a seguir matéria publicada no Setor 3 contando a história da Cooperativa:

Cooperativa jovem estimula a cidadania e produz pesquisas a baixo custo 
Laura Giannecchini  
24/09/2005

Por ser cara, a pesquisa de mercado é um luxo do qual normalmente apenas grandes empresas podem dispor. Antes de colocarem seu produto no mercado, elas avaliam a aceitação pelos consumidores, quantos itens devem ser produzidos e assim evitam o desperdício de tempo e de dinheiro em investimentos que não terão retorno. Enquanto isso, as pequenas e médias empresas aventuram-se pelo mercado. 

Mas uma iniciativa que está sendo desenvolvida no Jardim Fim-de-Semana (zona Sul de São Paulo) está tentando reverter essa situação. A Cooperativa de Logística Urbana (Cooplurb) vem desenvolvendo uma metodologia de pesquisa de baixo custo, acessível a pequenos e médios comerciantes locais.  

Se o objetivo da cooperativa, que reúne 25 jovens da região fosse apenas esse, talvez já se pudesse qualificá-la como uma grande iniciativa. Mas a pesquisa de mercado a baixo custo é o terceiro ponto da missão da Cooplurb. 

O principal intuito da cooperativa é criar uma Base Comum de Conhecimento Cidadão (BCCC), isto é, disponibilizar para toda a comunidade informações preciosas, que estimulem o estabelecimento de uma cultura de complementaridade, de solidariedade e de participação cidadã na região. Maria de Fátima Gomes Rodrigues, 22 anos e diretora-presidente da Cooplurb explica que uma das formas de promover isso seria, por exemplo, incentivando o encontro de uma empresa produtora de telhas, que costuma jogar fora parte de sua produção como entulho, com o dono de uma padaria, que precisa de entulho para construir o piso de um quartinho nos fundos. 

Por meio de técnicas cartográficas, de geoprocessamento de informações, de fotografia, pesquisa de campo, editoração, técnicas de maquete, utilização de informações do censo e conceitos de audiovisual, os jovens vão redesenhando o mapa da região, identificando as demandas ou carências locais, mas também todo o seu potencial. E assim, pretende-se promover a troca entre os diversos atores que vivem na região.  

Como são levantadas informações de todo o tipo, desde o número de portões quebrados, até o de buracos nas ruas, ou o de crianças e adolescentes fora da escola, o segundo objetivo da cooperativa é levar essas informações ao poder público. A contrapartida pelas informações, como explica Cíntia Rosa de Lima, 20 anos, que hoje é cooperada e educadora da Cooplurb, é a elaboração de uma política pública que solucione os problemas da região. 

A pesquisa de mercado, portanto, é apenas a forma que a cooperativa encontrou para garantir sua sustentabilidade. E a idéia para colocá-la em prática é simples: os adolescentes são contratados pelos comerciantes para, por exemplo, distribuírem folhetos publicitários. Na volta para casa, os jovens vão anotando as informações relevantes. Ou conversando com os moradores, para saber se existe ou não o interesse em um determinado produto. Assim, se um empresário quer abrir uma farmácia, os jovens podem verificar se há mercado para isso e, se não há, apontar para o empresário onde seria o melhor local para ele inserir seu empreendimento.  

Em seguida, as informações são armazenadas em um banco de dados, que depois é disponibilizado não só para o empresário, mas para a comunidade em geral.

Metodologia

A Cooplurb surgiu em 2002. Tratava-se de um projeto proposto pelos adolescentes que participavam do programa Agente Jovem do governo federal, na Casa dos Meninos. O objetivo do projeto, que foi desenvolvido em parceria com o Instituto Lidas, era promover o controle social e o desenvolvimento local. 

"Mas como promover o controle social popular em uma cidade com o tamanho e características de São Paulo?" -pondera Fátima.Propondo uma resposta, a diretora da Cooplurb explica que, por um lado, a cidade foi construída, sobretudo a partir das décadas de 60 e 70, por migrantes, que tinham o sonho de voltar para a cidade-natal, com dinheiro suficiente para construir sua casa. O sonho não se realizou e esses migrantes permaneceram em São Paulo, mas, segundo ela, nunca criaram um sentimento de pertencimento à cidade. O vínculo, capaz de criar a "obrigação moral" de cuidar dos espaços públicos, também não foi estabelecido. Por isso, a periferia da cidade - onde geralmente está concentrada essa população - não teve a atenção que merecia e foi se degradando. Isso sem contar que a cidade é enorme e a maioria das pessoas não vive a cidade como um todo, apenas uma parte, onde está localizada sua casa. 

Por outro lado, Maria de Fátima afirma que o conhecimento científico e tecnológico ficou sempre restrito a uma pequena elite. A população em geral nunca conseguiu se contrapor a uma política pública, exigir uma atitude do governo, ou mostrar sua opinião, porque não entendia como as coisas funcionavam. 

A solução, então, foi capacitar os jovens para que pudessem atuar em sua comunidade e, ao mesmo tempo, dividir a cidade em regiões menores, a fim de que a participação cidadã fosse algo concreto. Com base na pesquisa sobre Origem e Destino, realizada em 1997 pelo Metrô de São Paulo, o Instituto Lidas desenvolveu o conceito de Unidade de Planejamento Participativo (UPP). E assim, dividiu a cidade em 270 UPPs, áreas em que os moradores reconhecem os principais pontos de referência, mas de um tamanho suficiente para se promover o desenvolvimento local. 

Cada UPP é dividida em setores. E cada setor é sub-dividido nas chamadas "percorridas", que correspondem às áreas determinadas pelos Correios para que os carteiros distribuam as cartas. Cada "percorrida" fica sob a responsabilidade de dois jovens da Cooplurb, que levantam as informações, conforme as necessidades.  Para evitar gastos com transporte e alimentação, além da segurança, os adolescentes que trabalham na "percorrida" devem morar nessa área.

Ambiente virtual 

Acostumados com a era das discussões virtuais, os cooperados da Cooplurb relacionam-se muito bem com os computadores. Aliás, visando também a diminuição de custos e burocracias, os jovens decidiram que a cooperativa não terá uma sede física, mas que cada cooperado vai trabalhar de sua própria casa, em sua máquina. 

Para isso, os cooperados são incentivados a investir na compra de seu próprio computador, com configuração de ponta - já que os serviços prestados normalmente exigem tal configuração. Internet banda larga também não pode faltar. Isso porque diariamente os adolescentes fazem "reuniões digitais", nas quais trocam mensagens e experiências, relatam o que foi discutido nas reuniões presenciais, e se atualizam - ainda que não estejam fisicamente presentes em todas as atividades. 

A fim de facilitar a compra dos equipamentos, a Cooplurb criou um fundo de financiamento das máquinas. Assim, os cooperados, conforme vão recebendo pelos serviços prestados,vã pagando a dívida com a cooperativa. Atualmente, dos 25 cooperados, 17 já têm seu computador em casa. 

Foi criado ainda um sistema bastante prático de acompanhamento das finanças da organização, que permite a cada cooperado controlar diariamente as contas da cooperativa na Internet, utilizando-se de uma senha pessoal. O sistema também permite aos financiadores do projeto acompanhar, dia após dia, como está sendo utilizado o dinheiro doado.

Transformação pessoal

Como definem os próprios cooperados, na Cooplurb o "jovem não é o meio; é o fim". A preocupação maior dos jovens não é gerar renda - embora esse seja um ponto importante e uma cobrança por parte de vários pais. A objetivo dos jovens é aprender, crescer, obter uma formação sólida, que lhes permita atuar mais tarde em diversas áreas do mercado. 

Por isso, a idéia é que cada um dos cooperados dedique apenas seis horas semanais no trabalho da percorrida, mais algumas horas para a sistematização dos dados no computador. No tempo restante, eles são incentivados a estudar. Hoje, 6 cooperados são universitários - muitos deles com bolsa de estudo. Outros, já se inscreveram para prestar o vestibular no final do ano.  

Cíntia de Lima diz que, através do trabalho na cooperativa, o jovem consegue conhecer melhor a si mesmo, identificando sua vocação profissional. Com isso, ao invés de seguir os passos da maioria dos adolescentes que vivem na periferia (que vão ao mercado em busca do que encontrarem, quanto mais rápido melhor, pois precisam trazer dinheiro para a família), o jovem que passa pela Cooplurb recupera sua auto-estima, sentindo-se motivado a procurar no mercado uma vaga que lhe satisfaça pessoalmente.  

Para acalmar os pais durante todo o processo, os jovens realizam reuniões periódicas, com a presença dos responsáveis. Danilo Michel Segato, 17 anos, que está na cooperativa há seis meses, diz que as reuniões são importantes para esclarecer aos pais o trabalho dos filhos. Com isso, ele acredita que os pais começam a respeitar mais seu esforço. 

Nesses seis meses de Cooplurb, Danilo afirma que passou por uma grande transformação pessoal. Ele diz que passou a acreditar mais em si mesmo, sobretudo em sua capacidade de cursar uma faculdade pública. Também passou a se preocupar mais em ajudar as outras pessoas.

Desafios

Uma das principais dificuldades enfrentadas pela Cooplurb é sua legalização. Até hoje, a cooperativa não conseguiu regularizar seu registro de pessoa jurídica. Os jovens esperam que isso seja feito até o final do ano, pois só assim a cooperativa obterá sua verdadeira autonomia. 

Por enquanto, todos os trabalhos realizados pelos adolescentes (como a digitalização e atualização dos mapas de 200 cidades brasileiras que hoje está sendo realizado) são contratados ou via Casa dos Meninos, ou via Instituto Lidas. 

Incentivados pela conquista do Prêmio Milton Santos em 2004, que é uma recomendação da Câmara dos Vereadores para que o projeto da Cooplurb vire política pública, os jovens também pretendem ampliar seu trabalho para outras regiões da cidade. E isso já vem acontecendo. 

Por intermédio de um projeto que acaba de ser aprovado pelo Ministério do Trabalho, a Cooplurb vai implantar sua metodologia em mais três UPPs da região do M'Boi Mirim. E está capacitando adolescentes do distrito de Raposo Tavares, no bairro do Butantã, zona Oeste da capital, para fazerem pesquisas similares, que servirão de subsídio para a criação de uma Rede Social de Empregabilidade na região.